terça-feira, 9 de novembro de 2010

Neurose Infantil

É de fácil constatação a neurose de abandono numa criança quando seu pai ou mãe se afasta por alguns instantes. O desespero que esta demonstra parece nos dizer o quanto tem medo de que venha a ser abandonada por estes.
Pergunta-se: estaria isso ligado a incerteza de não ser amada? Um outro fator que poderíamos considerar seria se esta criança é filha de pais, que por razões variadas, acabam se tornando muito ausentes. E, ainda deve ser considerado o próprio trauma do nascimento, ocasião em que se deu a expulsão do útero, que num parto não tão tranquilo seria mais agravado talvez ocasionando essa neurose de abandono. Muitas são as possibilidades, mas é fato a evidência dessa neurose em muitas crianças.

AVALIAÇÃO DAS NEUROSES INFANTIS, SEGUNDO ANNA FREUD
De acordo com Anna Freud, a presença ou a ausência de sofrimento não pode ser tomada como fator decisivo quando se decide acerca de um tratamento de uma criança. E, alega que há muitos distúrbios neuróticos sérios que as crianças suportam com ânimo firme; além de outros menos sérios que provocam sofrimento.
Segundo ela, somente quando os sintomas da criança são conturbadores para o meio em que vive e, afetam diretamente os pais, há uma probabilidade maior destes procurarem um profissional da psicanálise para tratar de seus filhos ( a exemplo  das crianças que urinam na cama, pois  são levadas mais regularmente às clinicas do qualquer outra categoria de casos).
E, completa dizendo que os pais se mostram mais preocupados, por exemplo, com os estados de agressividade e de destrutividade dos filhos do que com as inibições; os atos obsessivos são considerados mais leves do que as crises de ansiedade, embora, na verdade, representem eles, um estágio mais avançado do mesmo distúrbio; os estágios iniciais da passividade feminina nos meninos, embora frequentemente decisivos para sua futura anormalidade, são quase que invariavelmente deixados despercebidos.

Em virtude disso, Anna Freud sugere que o analista avalie a seriedade de uma neurose infantil, não em virtude da criança de uma forma especial qualquer, ou em um dado momento, mas em virtude do grau em que não permita à criança o seu desenvolvimento posterior.

A CRIANÇA E SEU LUGAR EQUIVOCADO NO SEIO FAMILIAR
Prazer no desprazer e a necessidade da intervenção paterna
Ocorre que muitas mães não se desvincularam de seu papel de filha e ainda não assimilaram sua condição materna; por consequência, o filho acaba por não ter espaço para ser filho. Essa situação traz um desconforto e também um certo prazer, visto que o filho passa a desempenhar uma função de companheiro. Prazer porque lhe é agradável tal posição e, desprazer, justamente por não lhe ser dado o direito de desempenhar sua condição de filho.
Com isso o filho acaba por se tornar objeto da mãe, um vínculo que para ser quebrado depende da atuação paterna, desempenhando seu papel de pai e marido.

O sintoma da criança como revelador da estrutura familiar
O sintoma é a expressão de um desejo que foi reprimido, por outro lado, pode demonstrar algo que ficou bloqueado no desenvolvimento da relação inconsciente da criança com seus pais. E, durante o processo terapêutico, o terapeuta deve permitir que sobrevenha tudo o que o sujeito em formação não teve no curso do seu desenvolvimento.
São inúmeras as razões que levam pais ou responsáveis a procurar terapia para suas crianças, dentre as quais, destacamos:
Ø  Baixo rendimento escolar;
Ø  Comportamentos agressivos;
Ø  Timidez;
Ø  Enurese noturna;
Ø  Hiperatividade;
Ø  Dificuldades de interagir com outras crianças ou familiares;
Ø  Depressão;
Ø  Obesidade.
Caso tais comportamentos estejam associados à falta de habilidade para lidar com situações adversas difíceis,como a separação dos pais ou mudança de escola, a terapia, valendo-se de uma metodologia adequada, irá auxilia-la na aquisição de novos comportamentos eficientes para lidar com as situações geradoras do estresse emocional.
É importante que o analista observe por meio de uma atenção flutuante os sintomas apresentados pela criança, o que significa dizer que deve procurar captar tudo que o analisando quer dizer sem se focar num único tema.
Ainda na hora de analisar os sintomas apresentados pela criança, o analista deverá abster-se de pré-julgamentos, a fim de, seja possível uma interpretação condizente ao caso e, deverá ter o cuidado de nunca ver seu paciente como a um filho, além é claro, de atentar para o fato de que as crianças possuem grande sensibilidade para assumirem os sintomas e a angústia específica de seu grupo familiar e, os confrontará juntamente com seus próprios conflitos.

A IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO DOS PAIS NO PROCESSO TERAPÊUTICO DA CRIANÇA

O fato é que a escolha do profissional e a decisão pelo tratamento do filho se dão em razão de uma transferência dos pais em relação ao terapêuta e, é em razão dessa transferência que surge nos pais a confiança de entregar sua criança aos cuidados desse profissional.
O analista pode se tornar um objeto transferencial dos próprios pais de seu paciente, isto se deve ao fato de que para muitos pais, procurar um tratamento psicológico para seus filhos significa que eles falharam em sua paternidade e maternidade. Eles passam a atacar suas próprias falhas que criticaram em seus pais e suas mães. O fato é que as transferências dos pais em relação ao analista podem ser facilitadora do trabalho analítico ou pode vir a dificultá-la, ocorrendo até mesmo uma retirada inesperada da criança da análise, caso o analista não identifique e considere a transferência dos pais do paciente, estabelecendo uma escuta do que esses pais trazem e do que lhe é tão difícil de ser elaborado. Por outro lado, a transferência dos pais pode ser utilizada na reorganização dos lugares na dinâmica familiar.
É, portanto, de fundamental importância que os pais estejam incluídos no processo terapêutico da criança, visto que possibilitará ao terapeuta perceber os sentimentos destes em relação à criança. Se assim não for, o tratamento da criança torna-se praticamente inviável.
Ao envolvimento dos pais no processo terapêutico da criança através de sessões de orientações, dá-se o nome de modelo triádico. Dentre outros motivos, destacamos as seguintes razões, pelas quais, a participação efetiva dos pais é importante:
Ø  Possibilita ao analista detectar a causa dos sintomas apresentados pela
Ø  criança;
Ø  Os pais aprendem formas alternativas de ajudar o filho, visto que passam a entender melhor o que ocorre no contexto familiar;
Ø  Os pais ouvindo-se narrar os fatos, terão condições de se conscientizarem que também precisam da ajuda de um analista.
É preciso que os pais fiquem atentos aos possíveis sintomas e os comunique ao Psicanalista:
Ø  Observe durante alguns dias o comportamento da criança em várias situações: família, escola, clube, etc;
Ø  Procure detectar a partir de quando esse comportamento passou a se manifestar e, em quais circunstâncias e com que intensidade;
Ø  Analise quais tipos de tentativas foram feitas para solucioná-lo e, por quais pessoas e, em quais situações;
Portanto, deve haver uma intervenção orientada pelo terapeuta em todo ambiente no qual a criança interage, o que inclui, demais familiares, escola, etc.
A forma como os pais se posicionam é um fator determinante no processo terapêutico do paciente infantil. E, pode ser comum aos pais expressarem ansiedade sobre análise de seus filhos, e que, sentimentos de competição, possessividade e de culpabilidade surjam durante o processo, o que denotará o que a criança presencia na vida de seus pais e, que está sendo exibido por meio dos sintomas que apresenta. Por esta razão, faz-se necessário ao terapêuta identificar, esclarecer e elaborar as transferências que forem surgindo, a fim de levar os pais a se conscientizarem de suas próprias dificuldades, o que por sua vez, irá ajudar no êxito do tratamento.
No decorrer do tratamento, a criança pode passar a ter comportamentos tidos como inconvenientes por seus pais, por estarem se libertando de sua dependência emocional, ou mesmo, fazendo com que seus pais vejam que suas próprias dificuldades alimentavam-lhe o sintoma. E, os pais poderão ter dificuldades de lidar com esse tipo de situação, passando então, a negar o que está ocorrendo, transferindo para a figura do analista sua hostilidade, por não ter o profissional transformado seu filho naquilo que convinha às suas expectativas pessoais. Quando os pais tentam manipular e controlar seus filhos através do analista, solicitando essa “ajuda”, este pode ser um dado importante sobre a dinâmica dessa família e das necessidades inconscientes dos pais que estão procurando se realizar através de seus filhos. Esse fator que pode parecer, por um lado, um obstáculo ao tratamento, por outro pode ser usado como material a ser trabalhado, fornecendo ao terapeuta uma oportunidade de denunciar esse tipo de conduta dos pais e fazer com que reflitam a respeito.


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O PENSAMENTO WINNICOTTIANO

Donald Woods Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, dedicou sua carreira à compreenção das crianças, olhando-as como seres formados pela integração do orgânico e do emocional. Ele enfatiza uma visão relacional da criança com seu cuidador. É dele a teoria da “mãe suficiente boa”, que seria aquela que efetua uma adaptação ativa às necessidades da criança, adaptação esta, que depende muito mais da devoção do que do esclarecimento intelectual.
Embora a obra de Winnicott seja uma continuação das obras de seus mestres (Freud e Melanie Klein), o fato é que ele rejeitou a metapsicologia freudiana (especulação de caráter filosófico sobre a origem, estrutura e função do espírito, bem como sobre as relações entre o espírito e a realidade.)
Nota-se, que ele preservava a tradição de uma maneira um tanto curiosa, isso porque, em grande parte, ele a distorce; vindo a desenvolver idéias muito pessoais sobre a natureza humana.
Na clínica winnicottiana, as questões de relacionamento do bebê com seus cuidadores, foi enfatizada pelo autor não sob o ponto de vista de vicissitudes pulsionais, mas em conceitos como os de dependência absoluta, dependência relativa e independência, conforme são observados em diversos trabalhos e teórico-clínicos.
Segundo ele, o bebê cria o que lá está para ser criado, significando criar não só a sua mãe, mas também a situação psíquica transgeracional encontrada por ele no momento de seu nascimento. E, pode encontrar três diferentes situações no início de sua vida: missão, enigma e questão. Procura-se descrever as consequências para a constituição do self em cada uma dessas situações.
Winnicott trouxe idéias, derivadas principalmente de sua vivência clínica e, privilegiou o modelo de cuidado materno, transpondo-o para o setting clínico, visto como o lugar que propicia o desenvolvimento, no qual cada um está sendo criado e descoberto pelo outro, é uma experiência de mutualidade. Ele dirigiu sua atenção à pacientes que tiveram falhas ambientais precoces, preocupando-se em auxiliar na busca e no encontro do self verdadeiro.
Winnicott em suas pesquisas, chegou à conclusão de que
é impossível falar do indivíduo sem falar da mãe, por que, usando os termos da fase madura da sua teorização, a mãe é um objeto subjetivo [...] e, portanto, seu comportamento faz realmente parte do bebê.
E, concluiu ainda, que o relacionamento inicial da mãe-bebê não é uma relação dual-externa (não-mental) e o descreve da seguinte maneira:
 Qualquer tentativa de descrever o complexo de Édipo em termos de duas pessoas está fadada ao fracasso. No entanto, os relacionamentos do tipo dois corpos realmente existem, e pertencem aos estágios relativamente mais primitivos da história do indivíduo. O relacionamento original do tipo dois corpos é o que acontece entre o bebê e a mãe ou o substituto da mãe, antes que qualquer propriedade da mãe tenha sido identificada e transformada na idéia de um pai.
No início, o pai pode ou não ser uma mãe substituta. Se ele o é, sua presença é de alguém dotado de propriedades e funções iguais as da mãe, ou seja, tudo o que a mãe representa, o pai, enquanto substituto da mãe, passa a representar.
Mas, chegará o momento em que o pai passará a ser visto num papel diferente da mãe. E, é aí que o indivíduo passa a se tornar uma nova unidade, a partir de um novo modelo de identificação. Não havendo a presença paterna esse processo irá acontecer, porém, de um modo mais lento e mais trabalhoso, ou então utilizará um outro relacionamento suficientemente estável.
Para ele, o relacionamento mãe-bebê, na qual, a comunicação é não-verbal, transformou-se num paradigma do processo analítico e, há quem defenda que isso mudou a função da interpretação no tratamento psicanalítico. Guiado por tal paradigma, Winnicott foi conduzido a novas questões e, por consequência, a novos resultados. Questões do tipo: (1) “do que precisamos para nos sentirmos vivos ou reais?” (2) “de onde vem o sentimento, quando o temos, de que nossas vidas valem a pena?”.
A fim de responder a tais questões, Winnicott as abordou, vinculando a observação de mães e bebês aos insights derivados das sessões psicanalíticas e, além disso, ele enriqueceu a psicanálise com novos insights fundamentais, que, porém, se mostraram incompatíveis com os de Freud, isso porque, ele raramente os remetia ao lugar erótico da vida adulta.
Para Winnicott, o ponto crucial da psicanálise era a vulnerabilidade inicial do bebê dependente, dentro da relação dual com a mãe, e não, o complexo de édipo como defendido por Freud. Ele concluiu que as perturbações que pertenciam ao suposto campo de aplicação do paradigma edípico, simplesmente não se encaixavam nele; concluiu ainda que, o paradigma edípico não estava inteiramente errado, mas que não era suficiente.
Enquanto Freud estava interessado na luta dos adultos com desejos incompatíveis e inaceitáveis, que colocariam em risco suas possibilidades de satisfação, Winnicott, partindo do relacionamento caracterizado pela dependência quase total, tratava essas possibilidades como parte de um problema mais amplo das possiblidades do indivíduo ter autenticidade pessoal, que ele viria a chamar de “sentir-se real”. Trabalhando dessa maneira, Winnicott desconsiderou a metapsicologia de Freud, vindo a desenvolver, durante a década de 40, uma teoria do desenvolvimento que seria um poderoso rival para as teorias tanto de Freud quanto de Melanie Klein.
Pareceu-lhe claro que a psicologia da criança e do bebê recém-nascido fosse algo bem mais complexo, em razão de sua estrutura mental também complexa. Em sua tentativa de ter um paradigma que o guiasse chegou a considerar a idéia de que bebês emocionalmente doentes, precisavam ser reconciliados de algum modo com a teoria edípica, enquanto ponto de origem dos conflitos individuais, mas, acabou por rejeitar tal idéia.
Tendo conhecido Melanie Klein que também estava tentando aplicar a psicanálise à crianças pequenas, Winnicott de pioneiro, veio a se tornar aluno desta professora pioneira, mas concluiu que a psicologia do bebê recém-nascido por ele buscada não poderia ser do tipo kleniano; entre outras coisas, Winnicott discordava da idéia dos distúrbios precoces serem tratados por Melanie Klem como sendo problemas mentais internos, e não, como problemas do relacionamento entre o bebê e a mãe. Na sua busca por um paradigma chegou a analisar outros estudiosos da área, contudo, não se deu por satisfeito.

domingo, 26 de setembro de 2010

AS FASES DO DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO

FASE ORAL – 0 A 18 MESES

Este é o estágio mais primitivo do desenvolvimento. As necessidades, percepções e modos de expressão do bebê estão originalmente concentrados na boca, lábios, língua e outros orgãos relacionados com a zona oral. (...) As necessidades libidinais (erotismo oral) são consideradas predominantemente nos primeiros estágios da fase oral; mais tarde mesclam-se com componentes agressivos (sadismo oral). A agressão oral pode manifestar-se na ação de morder, mastigar, cuspir ou chorar. Está vinculada aos desejos e fantasias primitivos de morder, devorar e destruir próprios (KAPLAN & SADOCK ).

Nessa fase o bebê é egocêntrico e narcisista e, a noção que tem de sua mãe, é dela como sendo uma extensão sua - a isso denominado de dependência primária.
Vale dizer, que o parto, é para a criança o seu primeiro trauma, visto sair do conforto uterino para um mundo totalmente novo e desconhecido.
Um segundo trauma ocorre por ocasião do desmame, momento em que a partir de então o bebê passa a experimentar a cisão do seio bom e do seio mau e, começa a ter a noção de si mesmo como um ser distinto da mãe.
O seio bom é experimentado pela criança, como sendo a mãe que se faz presente e o seio mau como sendo a mãe que se encontra ausente, ou ainda que presente, não esteja disponível para dar-lhe a devida atenção. E, em virtude dessa indisponibilidade, a criança pode passar a experimentar sentimentos de rejeição e até a apresentar sintomas de neurose de abandono.
O excesso de gratificação ou privação oral pode resultar em fixações libidinais, que contribuem para a formação de traços patológicos. Esses traços podem incluir otimismo excessivo, narcisismo, pessimismo (visto com frequência nos estados depressivos) e o hábito de reclamar.
Porém, uma boa resolução da fase oral proporciona uma base para a estruturação do caráter e, para a capacidade de dar e receber sem dependência excessiva ou inveja; e, ainda uma capacidade de confiar no outro.

FASE ANAL - 18 MESES A 03 ANOS

Essa fase que envolve o ato de reter e soltar as fezes é de acordo com Freud, o segundo estágio do desenvolvimento psíquico e, visto que já se tem a maturação do controle neuromuscular, dará à criança as primeiras noções acerca de limites.
Este período... é acentuado por visível intensificação de impulsos agressivos mesclados a componentes individuais em impulsos sádicos. A obtenção do controle voluntário do esfíncter está associado com crescente mudança da passividade para a atividade. Os conflitos a respeito do controle anal e a luta sobre a retenção ou expulsão das fezes no treinamento de toalete despertam crescente ambivalência, ao lado de um conflito sobre a separação, a individuação e a independência. O erotismo anal refere-se ao prazer sexual no funcionamento anal, tanto na retenção das fezes como apresentando-as como um presente aos pais. O sadismo anal refere-se a manifestações de desejos agressivos ligados à descarga das fezes como armas poderosas e destrutivas. Esses desejos são muitas vezes manifestados nas fantasias das crianças, de bombardeio e explosões. O período anal é essencialmente um período de esforços por independência e separação da dependência e do controle dos pais. O objetivo do controle de esfíncter, sem controle excessivo (retenção fecal) ou perda de controle (sujando-se), está unido às tentativas de autonomia e independência da criança sem medo ou vergonha da perda de controle (KAPLAN & SADOCK)

Nela, se a criança não tem certeza de ser amada, passa a confrontar os pais como forma de testá-los em sua coerência no que tange à autoridade destes e, como já foi dito, isso se da em razão dessa incerteza de ser amada.
Uma má resolução dessa fase, em que as defesas contra os traços anais não foram eficazes, pode ocasionar traços patológicos, como: elevada ambivalência, desordem, desafio, cólera e tendências sado-masoquistas. E, além disso, as características e defesas anais são vistas mais comumente nas neuroses obsessivo-compulsivas, em razão de uma fixação nesta fase.
Por outro lado, uma boa resolução da fase anal proporciona a base para o desenvolvimento da autonomia pessoal, capacidade de independência e iniciativa pessoal, capacidade de auto determinação e capacidade de cooperação sem excessiva teimosia nem sentimento de depreciação própria ou derrota, ou seja, possibilita uma pessoa mais centrada.

FASE FÁLICA – 03 A 06 ANOS DE IDADE

Essa fase corresponde à unificação das pulsões parciais sob a primazia dos órgãos genitais, sendo uma organização da sexualidade muito próxima àquela do adulto (fase genital), porém, nessa fase, diferentemente da fase genital, ainda não há a noção de uma genitália feminina.

Características da fase fálica

Nessa fase as meninas ainda não conseguem fazer distinção entre a vagina e o clitóris, gerando uma enorme dificuldade de identificação, isso por que, elas não têm a vantagem da “mangueirinha do irmãozinho” e, em razão disso, muitas meninas, principalmente na puberdade, passam a ter complexos de inferioridade, motivando nelas, a inveja do pênis e, nos meninos, o medo da castração.
É uma fase em que a criança torna-se cônscia de si mesma e de sua genitália e, por conseqüência disso, ocorrem as primeiras manifestações de masturbação e exibicionismo; de forma que, para o menino, o pênis se torna como uma espécie de muleta psíquica.
“A fase fálica está associada com um incremento da masturbação genital acompanhado de fantasias predominantemente inconscientes de envolvimento sexual com o genitor do sexo oposto” (Kaplan & Sadock), caracterizando assim, o complexo de édipo, que tem nesta fase, seu ápice e declínio.
O complexo de Édipo se deve ao tabu do incesto e à ignorância acerca de sua repressão subsequente” (...) e “costuma ser o mais fortemente responsável pelos dissídios no matrimónio e incompatibilidades nas relações conjugais e problemas conexos, como prostituição, limitação de prole, etc., à base da notória discrepância que gera, entre os motivos conscientes e inconscientes, na eleição conjugal. A experiência analítica tem mostrado quão dificilmente uma mulher com forte fixação paterna consegue a felicidade no casamento, como por sua vez, um homem fixado eroticamente na pessoa materna. Não é, por certo, muito lisonjeiro à vaidade feminina, e nem tão pouco à masculina, o ensinamento segundo o qual os sentimentos do homem para com a mulher, responsáveis pela sua escolha matrimonial ou pelas ligações extraconjugais, são, independentemente de um complexo de Édipo em grau patológico, sempre influenciados por sua ligação remota com a mãe”. (...) Com as devidas restrições, podemos concordar com o ponto de vista de Maxwell Gitelson, para quem o complexo de Édipo (desde que não atinja um nivel muito patológico) não constitui unicamente a causa nuclear das neuroses, mas também base para a formação de um caráter normal e de uma maturação sadia”. (KARL WEISSMANN, 1976).

Uma outra característica dessa fase é o fato de que as reações interpessoais da criança passam a caracterizar-se pela seleção de um objeto sexual.

Problemas associados à fase fálica:

A derivação de traços patológicos do envolvimento fálico-edípico é tão complexa e está sujeita a tal variedade de modificações que abrange quase  todo o desenvolvimento neurótico. Os problemas, no entanto, centram-se na castração nos homens, e na inveja do pênis, nas mulheres. Outro importante foco de distorções evolutivas nesse período deriva-se dos padrões de identificação desenvolvidos sem a resolução do complexo de Édipo. A influência da ansiedade de castração e a inveja do pênis, as defesas contra ambas, e os padrões de identificação que surgem na fase fálica são os determinantes primários do caráter humano. Também incluem e integram os resíduos de estágios psicossexuais anteriores, de modo que as fixações ou conflitos derivados de quaisquer estágios precedentes podem contaminar e modificar a resolução edípica (KAPLAN & SADOCK )
E, além disso, podem ocorrer também os seguintes problemas: complexos de inferioridade, narcisismo, vaidade, hipersensibilidade e a masculinização das meninas (lesbianismo e inveja do pênis).
Contudo, uma boa resolução dessa fase proporciona os fundamentos para a formação de um senso de identidade sexual, dotada de uma curiosidade sem culpa e embaraço e, de um sentimento de domínio sobre os processos internos e os impulsos. Por sua vez, a resolução do conflito edípico no final do período fálico desperta poderosos recursos internos para a regulação dos impulsos e sua orientação para fins construtivos. Essa fonte interna de regulação é o Superego, que se embasa nas identificações originalmente derivadas das figuras parentais.

FASE DA LATÊNCIA – 6 A 12 ANOS DE IDADE
Nesta fase, a criança começa a descobrir suas funções intelectuais, e devido a essa nova descoberta sua atenção se vê desviada de seus instintos sexuais. Uma fase, que vai da resolução da fase edípica até a puberdade, em que “a sexualidade parece como que adormecida, sem sensíveis progressos. Todavia, os processos dos “delitos sexuais infantis permanecem arquivados durante esse período” (Kaplan & Sadock)
Ao final do período edípico, ocorre a instituição do Superego e a posterior maturação das funções do Ego, os quais, têm por função, um considerável controle dos impulsos instintuais.
O perigo no período de latência pode surgir da falta ou excesso de controles internos. A falta de controle pode levar ao fracasso da criança na sublimação de suas energias no interesse da aprendizagem e do desenvolvimento de habilidades. O excesso pode levar ao fechamento prematuro do desenvolvimento da personalidade e à precoce elaboração de traços de caráter obsessivos (KAPLAN & SADOCK)

Sexualidade Infantil
O reconhecimento das teorias psicanalíticas implica na aceitação do importante papel da sexualidade em geral e da sexualidade infantil — em sua conotação com a teoria da repressão, que é a pedra fundamental da doutrina de Freud — em particular (KARL WEISSMANN, 1976)
Weissmann esclarece que a sexualidade infantil tem por característica um caráter narcísico e, auto-erótico, haja vista o instinto sexual ainda não possuir um objeto.
Quando se fala em sexualidade infantil, deve-se ter em mente o fato de que aos órgãos genitais femininos nenhum papel é atribuído, assim, toda a questão gira em torno do sentimento de ter ou não ter uma “mangueirinha”.
Weissmann, esclarece ainda, que a sexualidade humana, ao invés de seguir o seu curso progressivo até o pleno desenvolvimento, sofre, mais ou menos, aos cinco anos de idade uma abrupta interrupção, seguindo-se, a partir de então, um período de relativa calma, por ele denominado como período de latência, o qual, irá durar até a puberdade.
É essa sexualidade infantil, e não, a sexualidade madura e adulta, que é suscetível de sublimação, ou seja, a sexualidade pré-genital (oral, anal e fálica-uretral), que leva o indivíduoatransformar energias psíquicas infantis em produtos socialmente aprovados e culturalmente aproveitáveis. A formação reativa segundo Weissmann, percorrre o caminho inverso da sublimação, pois, ao invés de canalizar as forças instintivas para vias socialmente aprovadas ou aceitáveis, a pessoa se limitar a levantar barreiras contra elas. Um exemplo de formação reativa é o caso do exibicionismo sexual, em que o indivíduo ao invés de aspirar a um posto de destaque físico ou intelectual, torna-se reativamente modesto e acanhado.

Teoria da repressão
Nas palavras de Freud, “por repressão entende-se essencialmente a função de rejeitar e manter algo fora do campo da consciência”. Desnecessário dizer que esse algo é quase sempre um impulso sexual, que o ego infantil, cedendo à pressão do meio, é obrigado a reprimir... É ponto pacífico que sem sexualidade infantil não existiria repressão e, sem a repressão não existiriam as neuroses. Lidar com neuroses é lidar essencialmente com a sexualidade infantil ou, mais precisamente, com fantasias sexuais infantis inconscientes.(KARL WEISSMANN, 1976)
Weissmann prossegue dizendo que “nas neuroses de adultos não nos deparamos necessariamente com as repressões primitivas, senão com as repressões subsequentes”. E, aponta como causa das neuroses humanas a longa infância e a fixação erótica aos progenitores do sexo oposto.

O desenvolvimento libinal, segundo Anna Freud
De acordo com Anna Freud, é possível, mesmo por um exame superficial, estabelecer se uma criança se encontra adequadamente dentro do quadro de sua idade, no seu desenvolvimento libinal e, para isso, ela chama a atenção para as fantasias que acompanham as atividades masturbatórias da criança, embora, na prática, ela admita ser de pouca valia para a formulação do diagnóstico.
Segundo ela, estas fantasias são sempre escamoteadas, muito frequentemente inconscientes, e apenas se mostram no transcurso de uma análise, não no transcurso de uma consulta.
Para Anna, a anormalidade libinal de uma criança é, além do mais, julgada de acordo com o que acontece com cada um dos instintos componentes. As suas manifestações não são visíveis no mesmo grau em todas as crianças; nem a criança, individualmente considerada, nos indica quadros igualmente claros quanto a todas as diversas tendências libinais.
E, explica que geralmente, alguns do instintos componentes acham-se claramente em evidência, enquanto que outros permanecem apagados e na sombra. E, que em relação a algumas crianças poderíamos acreditar que a crueldade ou o exibicionismo ou a perversidade não desempenharam qualquer papel em suas vidas; enquanto que com outras, essas pulsões são inequívocas e outros instintos somente se deixam perceber através de uma observação mais atenta.

FASE GENITAL – A PARTIR DOS 12 ANOS
A fase genital é o estágio final do desenvolvimento libidinal instintual. É uma fase que se estende do começo da puberdade até que o adolescente atinja a idade adulta. Nela, ocorre o despertar da sexualidade que se manteve adormecida na fase de latência, porém, fixações e regressões podem estancar o desenvolvimento libidinal e interferir na primazia genital e no funcionamento genital adequado na vida adulta.
Para Freud a puberdade significa a época em que a zona genital consegue se tornar capaz de realizar suas atividades, tornando possível a realização completa do ato sexual. Assim, se esta evolução sexual é normal no indivíduo, os prazeres sexuais mais intensos serão experimentados com satisfação na zona genital.
Ao contrário do que se possa pensar, para Freud, a puberdade não é o momento em que nasce o instinto sexual, e sim, o momento em que tal instinto adquire sua forma definitiva, tornando-se maduro e adulto.
Na fase genital, o indivíduo está sujeito a ser condenado ou não a uma neurose, psicose ou perversão. Mas, caso haja uma boa resolução dessa fase, o indivíduo irá desenvolver uma personalidade totalmente madura com capacidade para uma plena e gratificante potência genital e um senso de identidade consistente.

domingo, 19 de setembro de 2010

O APARELHO PSÍQUICO


Freud denominou de aparelho psíquico, a atividade psíquica. E, segundo ele, este aparelho é composto de três partes: Id, Ego e Superego.
Trata-se de um conjunto de elementos que estão em constante relacionamento entre si, mas que interferem uns nos outros. Do id nos vem a matéria-prima, a substância vital, o conteúdo instintivo; do ego o controle e, do Superego o corretivo das ações motivadas pelos dois primeiros.

O ID

Segundo o dicionário Aurélio, o Id é “a parte mais profunda da psiquê, o receptáculo dos impulsos instintivos, dominado pelo princípio do prazer e pelo desejo impulsivo” e, tem como função descarregar as tensões biológicas. É a parte mais primitiva da personalidade e, funciona como reserva inconsciente dos desejos e impulsos, tais como: comer, eliminar resíduos, obter prazer, etc, além dos impulsos sexuais e agressivos.
O poder do Id expressa o verdadeiro propósito da vida do organismo do indivíduo. Isto consiste na satisfação de suas necessidades inatas. Nenhum intuito tal como o de manter-se vivo ou de proteger-se dos perigos por meio da ansiedade pode ser atribuído ao Id. Essa é a tarefa do Ego, cuja missão é também descobrir o método mais favorável e menos perigoso de obter a satisfação, levando em conta o mundo externo. O Superego pode colocar novas necessidades em evidência, mas sua função principal permanece sendo a limitação das satisfações.

O EGO

Segundo o dicionário Aurélio, o “Ego é a parte mais superficial do Id, a qual, modificada, por influência direta do mundo exterior, por meio dos sentidos, e, em conseqüência, tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do Id”.

...o Ego saiu do id. É um Id diferenciado. É a sua parte organizada (civilizada). É a sua fachada;... (a ele) compete a tarefa da autopreservaçâo. Em relação aos fatores externos, o Ego cumpre essa função registrando, reagindo aos estímulos que lhe vem de fora, acumulando experiência em relação aos mesmos [pela memória], evitando excessos de estímulos [pela fuga], lidando com os estímulos moderadamente [via adaptação], e, finalmente, operando mudanças apropriadas no mundo externo em seu benefício [via atividade] (WEISSMANN, 1976).

Karl Weissmann esclarece em seu livro “Biblioteca de Perguntas e Respostas – 2. Psicanálise”, que tornar o Ego mais forte e mais independente do Superego é a meta por excelência de todo tratamento psicanalitico. E, ainda acerca do Ego, diz:

...sua função consiste no controle sobre as exigências instintivas do Id, quer permitindo a sua satisfação, quer postergando e determinando-lhe a época e as circunstâncias favoráveis ao meio ambiente, quer suprimindo as excita- ções completamente (...). [KARL WEISSMANN, 1976].

Weissmann alega que a transformação de autonomia primária em autonomia secundária se processa em parte através da capacidade do Ego, largamente inata, de postergação da descarga.
E, fazendo citação a Freud, diz que o Ego não é impulsionado apenas pelas forças do Id; explicando que Freud admitia que o Ego era também alimentado por outras forças, além das instintivas. E que, segundo ele, todos os conceitos de Ego e de Id relacionam-se aos pais e à nossa longa infância, eroticamente fixada aos mesmos, gerando as complicações do complexo de Édipo. E, diz que da identificação, mais ou menos problematizada, com os progenitores e com as figuras que são representantes da série materna e paterna, resulta a formação do Ideal do Ego, também chamado Superego.
E, alega que das perturbações sofridas nesse processo resultam as notórias crises de identidade, bem como os fenômenos de múltipla personalidade, e complicações de outra ordem.
Segundo Weissmann, “enquanto o Ego e o Id cumprirem os requisitos das suas relações recíprocas não haverá distúrbios neuróticos”.
“Para poder haver um desenvolvimento normal do Ego, as pessoas introjetadas no período de formação, devem ser despersonalizadas”, acentua Freud. E acrescenta: "e é precisamente isso que não ocorre com as pessoas neuróticas", que, por assim dizer, preservam as pessoas de suas introjeções e identificações dentro de si.

Daí as suas "indigestões" psíquicas, as suas perturbações égicas, com as suas crises e cisões patológicas. Não é de estranhar que, em tais casos, o Ideal de Ego não resulta na formação daquiIo que se poderia considerar um Ego Ideal (KARL WEISSMANN).

Freud compara o Ego, entre outras coisas, à razão, assim como o Id à paixão.
Contudo, a inteligência é apenas um dos aspetos do Ego, assim como a lógica.
A ordem evolutiva do Ego se processa, segundo Freud, em termos de gradativa transformação de Id em Ego. E, define a adaptação evolutiva do Ego como "um protótipo ideal daquele estado para o qual tendem todos os esforços conciliatórios (não unicamente do Ego, senão também os do Id e do Superego) e que constituem todas as suas múltiplas obediências".
A Verdade é que não é possível indicar o ponto exato onde o Id acaba e o Ego começa ou onde termina o Ego e inicia o Superego.

SUPEREGO
À medida que vai se desenvolvendo, a criança se vê diante de certas demandas do meio que persistem sob forma de normas e regras estabelecidas. Estas regras e normas pertencentes ao mundo externo acabam por se incorporar em sua estrutura psíquica, constituindo assim seu Superego, representando uma espécie de resposta automática do “certo” e do “errado”, que surge na pessoa diante das várias situações, nas quais deve tomar uma decisão.
O Superego se equacionou ao medo dos pais incorporado à consciência inconsciente do indivíduo. A mais ou menos temida autoridade parental que era externa e passou a ser interna, transformada na voz interior que repete monotonamente os velhos mandamentos familiares.
Dessa forma, o Superego trata-se de uma representação internalizada dos valores e costumes da sociedade.
Mas, para que haja um bom equilíbrio, surge a necessidade da existência de um Ego fortalecido, de um Superego moderado e do conhecimento da natureza e dos impulsos do Id.

O Ideal do Ego
Segundo Karl Weissman, o Ideal de Ego foi rebatizado com o nome de Superego, mas a denominação original não foi descartada. Passando a designar mais o aspecto positivo de nossa consciência moral, ou seja, os nossos ideais conscientes, os modelos que inspiraram as nossas melhores esperanças — como acentua Ernest Jones; enquanto por Superego se entendia mais os aspetos negativos: a função de criticar, advertir, punir, etc.